Artyom acabou por confessar que Valentina Stepanovna ficaria connosco cerca de dois meses porque o apartamento dela tinha sofrido uma inundação.
Não me tinha avisado.
— Sabia que ias dizer que não — admitiu.
Era precisamente esse o problema.
Dois anos antes já tínhamos combinado que ninguém ficaria semanas em nossa casa sem o consentimento dos dois.
Artyom escolhera ignorar essa regra.
Por isso fiz uma mala.
— Trouxeste a tua mãe sem me perguntares. Agora és tu que vais viver com a decisão.
Fui temporariamente para o apartamento vazio da tia Tamara.
Artyom acreditou que eu regressaria nessa mesma noite.
Não regressei.
Pouco depois começaram as mensagens.
«A mãe mudou tudo na cozinha.»
«Diz que jantamos demasiado tarde.»
«Convidou a tia Zoya para domingo.»
Alguns dias depois veio procurar-me.
— Já percebi. Devia ter falado contigo antes.
Mas antes de regressar recebi uma chamada de Valentina.
Queria saber onde estavam os documentos da casa.
Depois explicou que o quarto das traseiras podia ser transformado num pequeno estúdio com entrada independente para ela utilizar quando ficasse connosco por períodos mais longos.
Voltei imediatamente.
Em casa estavam Artyom, Valentina e um empreiteiro que media as paredes.
No formulário, Artyom aparecia como proprietário.
E havia ainda uma autorização com o meu nome e uma assinatura que tentava imitar a minha.
Eu não tinha assinado nada.
Artyom acabou por admitir que tinha usado cópias dos meus documentos para pedir um orçamento.
Dizia que ainda não tinha autorizado obras e que pretendia falar comigo «quando soubesse quanto custava».
— Outra vez decidiste primeiro e pensavas perguntar depois.
Ele não conseguiu negar.
A casa era exclusivamente minha, herdada da minha avó antes do casamento.
Pedi ao empreiteiro que saísse, consultei um advogado e deixei formalmente registado que nenhuma alteração podia ser feita sem a minha autorização direta.
Valentina acabou por ficar num apartamento temporário pago pelo seguro enquanto reparavam a casa dela.
O nosso casamento, porém, ficou muito perto de terminar.
Aceitei tentar reconstruí-lo apenas com uma condição clara:
Artyom nunca mais decidiria por mim porque receava que a minha resposta fosse «não».
Começámos terapia de casal.
Ele também explicou à mãe que a minha casa não era uma extensão da família onde todos podiam fazer planos livremente.
Meses depois, Valentina precisou novamente de alojamento por alguns dias.
Desta vez Artyom não respondeu em meu nome.
Virou-se para mim.
— Larisa, importas-te que a mãe fique aqui uma semana?
Era apenas uma pergunta.
Mas finalmente era a pergunta certa.
Porque o verdadeiro problema nunca tinha sido a presença da mãe dele.
Era acreditar que o meu consentimento podia ser ignorado sempre que fosse inconveniente.