Durante quase dois anos encontrei Larry todas as manhãs junto à entrada do metro\.

Levava-lhe um café, conversávamos alguns minutos e depois seguia para o trabalho.

Uma manhã encontrei-o com um cartaz:

«Casa comigo. Só me resta um mês de vida.»

Larry sofria de uma insuficiência hepática grave.

Disse-me que não queria morrer sem poder dizer que alguma vez tinha pertencido a uma família.

Eu sabia que não me estava a pedir um casamento por amor.

Dois dias depois casámos civilmente.

Três semanas mais tarde Larry morreu numa unidade de cuidados paliativos.

Pensei que a nossa estranha história tinha terminado.

Poucos dias depois recebi uma carta que ele enviara na véspera da morte.

Larry confessava que já sabia quem eu era antes de começarmos a conversar junto ao metro.

Tinha trabalhado com o meu pai, que morrera quando eu tinha doze anos.

Dentro do envelope encontrei uma fotografia antiga dos dois e uma pequena chave com o número 317.

Larry explicou que precisava que eu me tornasse legalmente sua familiar para garantir que certos documentos chegariam diretamente às minhas mãos.

A chave abria um cacifo num antigo armazém da empresa onde o meu pai trabalhara.

Lá encontrei cartas, extratos bancários e provas guardadas havia mais de trinta anos.

O meu pai tinha descoberto que um dos responsáveis da empresa desviava dinheiro.

Larry ajudara-o a reunir a documentação.

Poucos dias antes de entregarem tudo, o meu pai morreu num acidente considerado oficialmente acidental.

Larry ficou assustado e escondeu as provas.

Durante décadas viveu com a culpa de não ter falado.

A minha mãe acabou por admitir que sempre desconfiara da versão oficial, mas decidira esconder-me tudo por medo de que eu também fosse envolvida.

Entreguei os documentos a um advogado e às autoridades.

Os antigos movimentos financeiros foram analisados novamente e a fraude acabou por ser confirmada.

Foi então que percebi porque Larry passara tanto tempo a observar-me antes de se aproximar.

Anos antes, prometera ao meu pai que tomaria conta de mim se alguma coisa acontecesse.

Casar comigo não tinha sido apenas o último desejo de um homem a morrer.

Tinha sido a forma que encontrou de cumprir finalmente aquela promessa.

Na última linha da carta, Larry escreveu:

«Agora sei que a verdade chegou até ti. Já posso partir em paz.»

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