Eu tinha catorze anos quando um empresário rico olhou para a minha roupa simples, ocupou o meu lugar junto à janela na Primeira Classe e disse:

 

— A Económica fica lá atrás, menina.

Olhei novamente para o cartão de embarque.

Lugar 2A.

Não havia engano.

— Desculpe, senhor. Esse é o meu lugar.

O homem baixou o jornal e examinou a minha camisola, as sapatilhas e a pequena mochila.

— Então alguém cometeu um erro.

— Podemos verificar o seu cartão?

Ele soltou uma pequena risada.

— Sabes sequer quem sou?

Não sabia.

E, sinceramente, não me interessava.

— Richard Bennett. Presidente da Bennett Strategic Holdings.

Assenti.

— Muito prazer. Mas continuo no 2A.

Uma assistente de bordo aproximou-se e verificou os dois cartões.

— Senhor Bennett, o seu lugar é o 2B. A menina Coleman está no 2A. Pode mudar-se, por favor?

Richard cruzou os braços.

— Não vou trocar de lugar por causa de uma criança.

A cabine ficou desconfortavelmente silenciosa.

Depois acrescentou:

— Ela devia estar agradecida por sequer viajar na Primeira Classe.

Senti o rosto aquecer.

Mas lembrei-me de algo que o meu pai repetia desde que eu era pequena:

« Confiança não precisa de gritos. Deixa os factos falarem por ti. »

Respirei fundo.

— Está bem, senhor Bennett. Pode ficar com o lugar.

Ele sorriu, convencido de que tinha vencido.

— Finalmente.

Afastei-me e caminhei até à zona da frente do avião.

A assistente veio atrás de mim.

— Zara, não tens de desistir do lugar.

— Eu sei. Posso fazer uma chamada antes da partida?

Peguei no telefone e liguei ao meu pai.

Marcus Coleman trabalhava há muitos anos na área de operações internacionais da aviação. Coordenava contratos e procedimentos entre companhias aéreas, aeroportos e empresas de assistência em terra.

Eu raramente falava sobre o trabalho dele.

Não queria ser tratada de forma diferente por causa do seu nome.

— Zara? Está tudo bem?

— Há um problema no voo 212.

Expliquei o que tinha acontecido.

Ele não ficou furioso.

Fez apenas perguntas.

— A tripulação confirmou que o 2A é teu?

— Sim.

— O passageiro recebeu instruções para ocupar o 2B?

— Sim.

— E recusou?

— Sim.

Fez-se uma pausa.

— Estás com um membro da tripulação?

— Estou.

Então respondi:

— Pai, bloqueia o voo até isto ser resolvido.

Não significava cancelar o avião.

O meu pai não podia simplesmente desligar um voo porque alguém me tinha irritado.

Mas podia comunicar imediatamente uma questão operacional e de cumprimento das instruções da tripulação às pessoas responsáveis pela partida.

Poucos minutos depois, o embarque foi temporariamente interrompido.

A porta permaneceu aberta.

Richard voltou a baixar o jornal.

— Porque é que não partimos?

Um supervisor da companhia entrou acompanhado por um agente de segurança do aeroporto.

Levava uma pasta vermelha.

A primeira coisa que fez foi verificar o meu cartão de embarque.

Depois o de Richard.

— Senhor Bennett, está confirmado que o seu lugar é o 2B.

— Já expliquei. São praticamente iguais.

— Não são iguais para a passageira que reservou o 2A.

Richard apontou para mim.

— Estamos a atrasar um avião por causa de uma adolescente?

O supervisor respondeu:

— Não. Estamos a resolver a recusa de um passageiro em cumprir uma instrução legítima da tripulação.

A expressão dele mudou.

— Tenho reuniões importantes em Londres.

— Então recomendo que coopere para que possamos partir.

Richard finalmente se levantou do 2A.

Pensei que a situação tivesse terminado.

Mas o supervisor abriu a pasta.

— Há ainda outra questão, senhor Bennett.

Richard ficou novamente tenso.

— Qual?

O supervisor consultou uma página.

— Este não é o primeiro incidente registado na sua reserva de passageiro frequente.

Richard ficou calado.

Eu não sabia nada sobre aquilo.

Nem o meu pai.

O supervisor explicou que, em dois voos anteriores, tinham sido registadas discussões semelhantes sobre lugares e instruções da tripulação.

Em nenhuma delas o caso fora suficientemente grave para impedir que viajasse.

Mas agora existia um padrão documentado.

— Isso é absurdo — respondeu Richard. — Sou cliente desta companhia há quinze anos.

— Precisamente por isso esperamos que conheça as regras.

O homem que minutos antes perguntara a toda a gente se sabia quem ele era deixou de falar.

O supervisor então dirigiu-se a mim.

— Menina Coleman, pretende ocupar o seu lugar original?

Olhei para o 2A.

Depois para Richard.

— Sim, por favor.

Ele mudou-se para o 2B.

Sentei-me junto à janela.

Poderia ter terminado ali.

Mas Richard virou-se para mim alguns minutos depois.

— Então o teu pai trabalha para a companhia aérea?

— Não exatamente.

— Mas tem influência.

Olhei para ele.

— Ele conhece os procedimentos.

— E usaste isso contra mim.

Aquilo incomodou-me.

— Não. Pedi ajuda depois de o senhor recusar a instrução da tripulação.

Ele ficou em silêncio.

Depois perguntou:

— Se o teu pai não tivesse aquele emprego, o que terias feito?

Pensei alguns segundos.

— Provavelmente teria pedido ao supervisor da mesma maneira. Só teria demorado mais tempo.

Ele voltou-se para a frente.

Pouco depois, o supervisor anunciou que a situação estava resolvida.

A porta fechou-se.

O voo saiu com um atraso relativamente pequeno.

Durante quase duas horas Richard não disse uma palavra.

Depois, inesperadamente, perguntou:

— Porque não disseste logo quem era o teu pai?

— Porque o lugar era meu mesmo que o meu pai fosse mecânico, professor ou desempregado.

Ele olhou para mim.

Não tinha resposta.

Quando chegámos a Londres, levantei-me para pegar na mochila.

Richard também se levantou.

— Zara.

Parei.

Parecia desconfortável.

— Fui arrogante contigo.

Esperei.

— Vi uma criança com roupa simples e decidi que não podias pertencer ali.

— Sim.

Ele pareceu surpreendido por eu não suavizar a resposta.

— Desculpa.

— Obrigada.

Não nos tornámos amigos.

Não houve nenhuma transformação milagrosa.

Ele seguiu o seu caminho e eu segui o meu.

Mas antes de sair do avião, a assistente de bordo aproximou-se de mim.

— Lidaste muito bem com aquilo.

Sorri.

— O meu pai vai ficar contente por ouvir isso.

— Pelo facto de teres recuperado o lugar?

Abanei a cabeça.

— Pelo facto de não ter precisado de gritar.

Naquela viagem aprendi algo que nunca esqueci.

Richard tinha presumido que o meu valor podia ser medido pela minha idade, pela minha roupa e pelo facto de eu não parecer suficientemente importante.

Mas um direito não se torna mais válido quando pertence a alguém poderoso.

O meu cartão dizia 2A antes de ele saber o meu apelido.

E continuaria a dizer 2A mesmo que ninguém importante tivesse atendido o telefone.

Respeitar alguém apenas depois de descobrir quem é a sua família não é respeito. O verdadeiro caráter aparece na forma como tratamos uma pessoa quando acreditamos que ela não tem poder nenhum.

Share to friends
Rating
( No ratings yet )
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: