Alexandre pediu-me que não conduzisse sozinha enquanto ele estivesse, supostamente, em Lyon.

Uma hora depois vi-o numa câmara privada da nossa garagem.

Estava com Valérie, a assistente com quem mantinha uma relação.

Os dois mexiam no meu carro.

Depois ouvi:

— Vai parecer um acidente.

Valérie perguntou pelo dinheiro.

Alexandre respondeu:

— Novecentos mil euros.

Era exatamente o valor do seguro de vida que me tinha apresentado meses antes.

Ele era o beneficiário.

Não o confrontei.

Guardei várias cópias da gravação e levei o automóvel a um mecânico independente.

O relatório confirmou uma intervenção deliberada no sistema de travagem.

Depois descobrimos algo ainda pior.

Existia um segundo seguro em meu nome que eu nunca tinha autorizado.

E alguém preparara antecipadamente uma participação de acidente com a estrada de Fontainebleau, a matrícula do carro e a data do dia seguinte.

Havia ainda referência a uma alternativa caso o acidente não fosse fatal.

Valérie estava ligada a essa segunda parte.

Foi então que deixei de ter qualquer dúvida.

Alexandre não estava apenas a imaginar a minha morte.

Estava a organizá-la.

O meu advogado entregou às autoridades os vídeos, o relatório técnico e os documentos financeiros.

Mas Alexandre continuou a acreditar que eu não sabia de nada.

No dia seguinte enviei-lhe uma mensagem:

«Vou sair agora para Fontainebleau.»

Ele respondeu:

«Tem cuidado, querida.»

Eu não estava sequer no veículo.

Enquanto ele e Valérie acreditavam que o plano continuava, eram observados pelos investigadores.

Mais tarde Alexandre telefonou.

— Onde estás?

— Com o meu advogado.

— Porquê?

Respondi:

— Porque ele está comigo e com a polícia.

Alexandre deixou de falar.

A investigação encontrou depois mensagens sobre o seguro, a casa e as participações que eu herdara dos meus pais.

Ele esperava lucrar com praticamente todo o meu património.

Os documentos da segunda apólice e as conversas com Valérie mostravam ainda que tinham preparado mais do que uma possibilidade.

Pedi o divórcio.

Mudei imediatamente testamento, beneficiários, acessos bancários e autorizações.

As provas seguiram para o processo contra os dois.

Eu, por outro lado, voltei à profissão que tinha abandonado anos antes.

Análise e prevenção de fraude.

Alexandre conhecia o meu passado profissional.

Até o tinha estudado para tentar perceber que sinais eu seria capaz de reconhecer.

Mas esqueceu-se de uma coisa.

Eu podia ter deixado o emprego.

Não tinha perdido a capacidade de perceber quando alguém tentava transformar um crime num simples acidente.

Durante sete anos pensei que a maior prova de amor era confiar sem questionar.

Hoje sei que sobrevivi precisamente no momento em que voltei a confiar também em mim própria.

Alexandre queria receber 900 mil euros pela minha morte.

No fim, perdeu aquilo que julgava já controlar:

a mulher que nunca imaginou capaz de descobrir a verdade.

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