Depois reparei numa pequena mancha de nascença em forma de meia-lua no ombro dele.
Corri para o quarto e retirei de uma gaveta um velho medalhão que guardava há vinte anos.
No interior estava uma fotografia do meu pai, Gabriel, que desaparecera quando eu tinha dezasseis anos.
Ele tinha exatamente a mesma marca no ombro.
Quando mostrei a fotografia a Lucas, as mãos dele começaram a tremer.
— Gabriel… — murmurou.
Olhei imediatamente para Julian.
— Tu sabias?
O meu marido acabou por me contar tudo.
Durante o voluntariado tinha visto a marca por baixo da camisa de Lucas.
Recordou-se de uma antiga fotografia do meu pai que vira anos antes e começou a investigar.
Encontrou um registo de desaparecimento com vinte anos cuja descrição correspondia àquele homem.
Não me disse nada porque não queria criar falsas esperanças.
Poucos dias depois, um teste de ADN confirmou a verdade.
Lucas era realmente o meu pai.
Também conseguimos descobrir o que lhe tinha acontecido.
Vinte anos antes, Gabriel ficara gravemente ferido durante o colapso parcial de uma obra.
Chegara inconsciente ao hospital, sem documentos, e sofrera uma lesão na cabeça que lhe provocara uma profunda perda de memória.
Quando recebeu alta, continuava sem saber quem era.
Com o passar dos anos, acabou por viver entre abrigos, estações e as ruas.
Nunca tinha abandonado voluntariamente a família.
Quando lhe contei que a minha mãe morrera alguns anos depois do desaparecimento, acreditando que ele nunca regressaria, Gabriel chorou.
Eu também.
Naquela mesma manhã eu tinha dito a Julian que algumas pessoas simplesmente escolhiam viver na rua.
Agora percebia como tinha sido injusta.
O meu próprio pai era a prova de que, por detrás de uma pessoa sem-abrigo, pode existir uma história que ninguém se preocupou em conhecer.
Gabriel ficou connosco enquanto recuperava.
Pouco a pouco, algumas memórias começaram a regressar.
Certa tarde encontrou uma fotografia minha em criança.
Ficou muito tempo a olhar para ela.
Depois levantou os olhos para mim.
— Mariana.
Comecei a chorar.
Depois de vinte anos, o meu pai não tinha apenas recuperado o próprio nome.
Finalmente também se tinha lembrado do meu.